Alguno de los términos más buscados
O diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, Álvaro Almeida, deixou esta quarta-feira uma afirmação que não passou despercebida na comissão parlamentar de Saúde. Questionado sobre a eficácia do atual modelo organizacional, declarou, com a franqueza de quem se diz estudioso destas matérias há longa data, que simplesmente não conhece investigação alguma que sustente a superioridade das Unidades Locais de Saúde (ULS) face ao sistema que vigorava até 2023.
“Do meu conhecimento, de todos esses estudos não há nenhum que demonstre que o modelo ULS seja superior ao modelo que tínhamos antes”, afirmou Almeida, numa intervenção que pareceu carregar um misto de frustração técnica e ceticismo. “Não conheço nenhum estudo que justificasse que, de um momento para o outro, se adotasse este modelo de ULS em todo o país”, acrescentou, levantando assim um véu sobre uma decisão política de fundo que reconfigurou a rede.
A verdade é que, no arranque de 2024, a reorganização do SNS materializou-se na criação em bloco de 31 novas ULS, somando-se às oito pré-existentes. A lógica, amplamente divulgada, era a da integração: fundir numa única entidade gestora, por área geográfica, os cuidados de saúde primários e os hospitalares, supostamente para descomplicar a vida aos utentes. Um desígnio ambicioso, portanto, que agora vê um dos principais responsáveis pela rede pública colocar em causa a sua base demonstrativa.
Almeida, que falava no contexto de uma audição sobre a Linha SNS 24, não se ficou por meias palavras. Reforçou a sua autoridade no tema, lembrando o seu percurso académico e a orientação de estudos precisamente sobre este modelo. Mas foi na defesa da diferenciação que a sua argumentação ganhou contornos mais nítidos. Portugal, lembrou, não é um todo uniforme em matéria de saúde. “Temos regiões muito diferentes, com necessidades diferentes e com respostas diferentes”, disse, num tom que parecia sublinhar o óbvio tantas vezes esquecido.
Daí a sua conclusão, lapidar e porventura incómoda para defensores de soluções únicas: “Aplicar o mesmo modelo a todas é uma fórmula de insucesso”. A receita, defendeu o diretor, terá de ser outra, obrigando a “soluções adaptáveis a cada caso”, já que as realidades locais são, no fundo, mundos aparte. Uma posição que lança um desafio prático à uniformidade do atual desenho, sem, no entanto, o rejeitar em absoluto. Fica no ar a questão sobre como compatibilizar esta visão, pragmaticamente descentralizadora, com a arquitetura única que, de facto, foi implementada.